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Rosi Rico e João Luiz Rosa
Passado o choque inicial, as imagens dos atentados de 11 de setembro despertaram um sentimento de urgência em relação à
adoção de tecnologias como videoconferência, armazenamento de dados remoto e sistemas de segurança da informação. Empresas
desses setores tiveram um aumento exuberante na procura por seus produtos nos dias seguintes ao ataque e muitos profissionais
do mercado não tardaram em prever um "boom" dos negócios. Um ano depois, o cenário previsto não se confirmou.
Pelo menos, não na medida esperada. O caso das empresas de videoconferência é emblemático. A subsidiária brasileira da
americana Polycom, fabricante de equipamentos para o segmento, registrou crescimento de 30% nas consultas nas semanas que se
seguiram ao atentado. Mas só um terço delas converteu-se em vendas nos meses seguintes. O mesmo aconteceu com quem presta
serviços de videoconferência. Na Câmara Americana de Comércio de São Paulo, que tem duas salas aparelhadas, o número de
horas utilizadas saltou da média de 50 a 80 horas mensais para 130 horas nos três últimos meses de 2001. Encerrada essa fase
aguda, no entanto, a procura voltou aos patamares normais.
As áreas de armazenamento de dados ou storage e de sistemas de segurança passaram por processo semelhante. "Os ataques
mostraram às empresas a importância de manter cópias dos dados em vários lugares, mas isso não se traduziu em maiores
investimentos", diz Bruno Rossi, analista do International Data Corporation (IDC). A previsão é de que este ano as vendas de
storage vão crescer 6% no Brasil, uma evolução considerada razoável, mas abaixo do desempenho de 2001, de 13%. O que
aconteceu? "A velocidade de crescimento dos negócios teria se mantido em níveis mais altos se não tivessem ocorrido tantas
oscilações, como a alta do dólar e a redução da atividade econômica", justifica Rossi. Além disso, lembra o consultor,
existe a incógnita das eleições, que também contribui para postergar os investimentos. Isso tudo não quer dizer que o
efeito "11 de setembro" tenha sido nulo em longo prazo.
O World Trade Center de São Paulo, cujo nome ficou marcado pela tragédia, tem uma sala de videoconferência para 20 pessoas e
prepara-se para abrir mais duas em 60 dias: uma para até 24 pessoas e outra para 80. Além disso, tem um equipamento móvel,
que pode ser usado em seu auditório para 550 pessoas. "Houve aumento da demanda depois do atentado, mas um dos motivos dessa
procura está relacionado à outra razão: a redução de custos buscada pelas empresas", diz Gilberto Bousquet Bomeny,
presidente do WTC São Paulo. Para a Polycom - que em outubro concluiu a compra da rival PictureTel por US$ 360 milhões -
parte dos ganhos também se mostram duradouros. O patamar atual das consultas é 10% superior ao do período anterior a 11 de
setembro e a estimativa para o ano é de um aumento de 20% nas vendas.
A BMC Software, especializada em programas de computador para empresas, criou uma divisão específica para sistemas de
segurança no início do ano. A área, junto com a de storage, é uma das que mais cresce na companhia. A estimativa é de que
responda por 30% de suas vendas no Brasil, bem acima dos 13% do ano passado. A julgar por uma pesquisa da Gemelo Storage,
ainda há muito espaço para crescer. Entre as 214 grandes empresas consultadas no eixo São Paulo-Rio, 89% disseram não manter
nenhuma cópia de segurança fora de suas instalações. "Além dos custos altos, há uma barreira cultural", observa Sidney
Fabiani, diretor presidente da Gemelo. "As companhias temem armazenar dados em outras empresas." Outro ponto é o ceticismo
quanto à possibilidade de ocorrer incidentes.
"Eles dizem que não há terrorismo ou terremotos no Brasil, mas se esquecem de incêndios, inundações, roubos etc." Ainda como
reflexo dos ataques, a americana Unisys acaba de ganhar uma concorrência para implantar uma infra-estrutura tecnológica de
segurança para 429 aeroportos dos EUA. "O contrato pode servir de modelo para eventuais negócios em outros países, como o
Brasil", diz Nelson Osório, diretor de tecnologias de segurança pública da empresa no país. Para hoje, quando os ataques
completam um ano, paira a ameaça de um surto de vírus de computador que poderiam utilizar os atentados como chamariz. "Em
todos esses meses, não tivemos nenhum relato de algo do tipo, mas estamos em estado de alerta, em âmbito global, para criar
vacinas no caso de isso acontecer", diz Patrícia Ammirabile, da NAI, especializada em segurança de rede.
Ajuda digital na reforma do Pentágono
Há exato um ano, o americano Jeff Bowman estava em seu escritório, em um trailer ao lado do Pentágono, quando ouviu o
estrondo do avião se chocando contra o centro de defesa dos Estados Unidos. "Saí correndo, mas então lembrei que tinha
informações úteis e voltei para meu lugar", recorda-se. O resto da equipe foi embora. Ele nunca vai se esquecer do ocorrido:
passou 24 horas seguidas no trailer, que se transformou numa espécie de QG de emergência. Bowman trabalha para a A/E Data
Integration, companhia de Washington DC que desde 1995 administra as informações relativas ao projeto de reforma do
Pentágono. De volta ao escritório, ele começou a procurar as plantas do prédio, uma cidade de cinco andares interligada
por 28,2 quilômetros de corredores.
Detalhe: com a energia elétrica cortada, Bowman partiu para a busca em meio a um acervo em papel de um milhão de documentos
e 500 mil desenhos, alguns tão detalhados que mostravam até quem estava sentado nos lugares atingidos. "Com as plantas em
terceira dimensão que havíamos feito para o projeto de reforma, foi possível acelerar o resgate das vítimas e evitar um
desastre maior", diz William E. Skinner, presidente da A/E Data Integration. O avião atingiu parte de duas das cinco alas do
Pentágono, relata o empresário. Na que já estava reformada, o fogo durou duas horas.
Na outra, em recuperação, foram dois dias. A reforma do Pentágono - construído nos anos 40 - começou no início da década
passada. Com as plantas em 3D, feitas com o software MicroStation da americana Bentley, que trouxe o empresário ao Brasil,
a AE detectou problemas que ajudaram nas alterações do edifício, como a ampliação do porão e a construção de um mezanino
subterrâneo em terreno pantanoso, ao lado do rio Potomac. Um dos episódios envolvem as janelas do Pentágono, em processo de
substituição.
Ao perceber que uma delas quebrou ao ser derrubada por um trabalhador, Skinner pediu que o fornecedor fizesse uma revisão
das especificações. A avaliação mostrou que as janelas estavam muito próximas do ideal, mas não atendiam completamente às
especificações. "Cerca de 500 janelas já instaladas foram substituídas, o que ajudou a deter a aeronave no atentado", diz
Skinner. Hoje, de volta a Washington, ele participa das cerimônias no Pentágono, cuja ala atingida será reaberta. O processo
de reforma geral continua até 2010 e vai consumir um orçamento de US$ 2 bilhões.
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